domingo, 18 de abril de 2010

Os Olhos de Alice

Os Olhos de Alice
- a menina dos olhos de jabuticaba

                          Lembro-me ainda de como foi difícil iniciar um papo na net com a Alice, professora lá de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, no átrio direito do coração do Brasil, que me chamou atenção primeiro por toda a história daquela região na época da ditadura e também pela presença e D. Pedro Casaldáliga como bispo naquela região, bandeira na luta pelas causas sociais, na preferência pelos mais desfavorecidos, perseguidos, discriminados! Por mais que eu puxasse assunto, ela era sempre reticente, mostrando nitidamente o desinteresse pelos papos (e deviam ser mesmo papos teia de aranha, desses com conversas manjadas de início de conhecimento por aqui). Até que um dia dei um xeque-mate (rsrsrs), pedindo até desculpas por estar importunando-a de forma insistente com assuntos que talvez não lhe interessassem mesmo. Não foi ríspida em sua resposta e abrimos um caminho para nos conhecermos mais e falar de poesia, livros, filmes, pluralidade de nosso país, vários Brasis contidos nesse continente. Foi amadurecendo o papo, se entranhando histórias e casos, até que, assim sem nos dar conta, quando vimos, já estávamos lá, os dois, diariamente procurando novidades para contar um ao outro. 

                                  Fiz esse preâmbulo todo só para falar aqui do que hoje me motivou essa postagem: Os Olhos de Alice! Engraçado que logo me chamaram atenção aqueles olhos arregalados, como que querendo ver de cara tudo que a gente tem para mostrar, mas ao mesmo tempo, se abrindo também para quem os observa! Aqui no interior temos mania de falar das pessoas com esses olhos assim como sendo olhos de jabuticaba! Mas como eu poderia dizer de jabuticaba esses olhos não pretos, a maior característica desses mesmos olhos a que me refiro aqui? ... mas eu continuava os achando assim: olhos de jabuticaba! Até que um dia, do nada, soltei essa frase tosca: acho lindos seus olhos de jabuticabas! rsrsrs Ela então, acho que meio assustada com o papo me perguntou: Mas de jabuticabas? (acho que em todo lugar esse termo tem o mesmo significado!) Mas eu não podia me dar por vencido: - Sim, olhos de jabuticabas verdes! kkkkkkkk E como eu já a chamava de "karajá", pela presença desses indígenas naquela região, ficou então sendo a karajá dos olhos de jabuticabas verdes! E ela me passou a chamar de cara pálida e fomos construindo uma relação de cumplicidade, de trocas de informações, falando dos sonhos, das distâncias, das praias do mar, e das do rio também... e até hoje é muito bom falar com ela, rir com ela e prometer sempre que um dia passo por lá!
                                  E ela até já sabe que vou sim, um dia eu vou! E ficou lá no meu orkut, no meu álbum em eterna construção, onde tenho meus amigos, uma foto da Alice com seus realçados olhos tão verdes, por onde passam as águas do Araguaia, enxurradas transbordantes que me inundam de saudades de um lugar que nem ainda vi. E neste olhar assim tão distante e penetrante, vejo também o jeito dessa gente simples e sábia em seus modos contidos e na singeleza de suas convicções. É tão frágil e tão forte que confundo às vezes o que é Alice e o que é karajá: eu, um cara pálida bobo daqui de longe, construo muros e estradas que ora me protegem dela, ora me levam até lá! E esses olhos tão acesos que ultimamente chamaram atenção de uns amigos que colocaram uns comentários lá, e que se apertam nos risos frouxos que vejo na Web cam, já os vi tão pertos, nas belas paisagens de um Rio de Janeiro que lhe apresentei num reveillon passado, e que passou tão depressa que nem me recordo mais qual foi! rsrsrs
                                 Um dia verei nesses olhos o reflexo das águas de lá, e da poeira que imagino por lá, e das chuvas fortes que ela me conta de lá, e dos seus meninos obedientes que adoram bife com uma verdura qualquer, e  das frutas doces de seu pomar, e da sua bicicletinha cortando as ruas da cidade, e da sua mãe varrendo os ciscos do quintal, da satisfação de conviver com o Pedro e de mim mesmo, bobo e jacu na alegria de passar por lá... por lá onde verei nos Olhos de Alice, as tais jabuticabas verdes!


4 comentários:

TEREZINHA disse...

Que belo, perfeito!!! Adorei " os olhos de Alice". Voce foi perfeito, neste momento minha amiga precisa mesmo de um incentivo desse! Parabéns, pelo carinho por ela, parabéns pelo texto maravilhoso!

Anônimo disse...

Alice Guimarães
São Félix do Araguaia-MT
Sempre que entro aqui no Blog do Marcelino fico meio que extasiada pelo seu jeito de escrever. Me surpreende sempre pela sensibilidade, revelada nos textos que registra sobre as coisas mais simples, estas ganham significado, magia, cores e formas...Fico imaginando a casa da Fátima, o telhado da sua própria casa, o terraço, o abacateiro e estante de livros, as pessoas ...o teatro enfim..MAS nunca me imaginei protagonista de sua obra..Imagina como fiquei! (Meus olhinhos de jabuticaba verdes ficaram querendo chorar.....de emoção)
Um Registro:
Sinto de você a mesma sensação de acolhimento, daqueles que me rodeiam e me enchem de carinho e atenção em todos os momentos da minha vida. Que bom que você existe e mesmo distante se faz presente na minha vida! Saudades sempre..te espero aqui sempre...bjos.

Graça Carpes disse...

"Os olhos de Alice" já é um título lindo. Agora, "olhos de jabuticaba verde"... Nossa, me ganhou.
:)

Orlando disse...

o comentario da Graca Carpes ja disse tudo por mim